A Espiritualidade do Ator



Há algumas vezes em que opto por inverter a ordem de alguns assuntos para ter um resultado melhor, mas este não é o caso. Seguindo a tradição das escolas de atores, eu trato deste tema para facilitar a compreensão de outros.


Se você passou pela minha página Bio, já sabe que vim da música religiosa, apesar de eu ter começado estudando as músicas profanas, a minha atuação de palco começou lá, somada à raras apresentações teatrais. Tive a oportunidade de conviver com pessoas de várias religiões, principalmente no tempo em que vivi na Inglaterra, o que me impulsionou a enxergar além das aparências.


Foi em 2009 que decidi entrar na primeira turma da LIASE UFG (Liga de Espiritualidade e Saúde da UFG), que acontecia no prédio de medicina, muitas vezes no Teatro Asklépios. Lá estudávamos sobre os efeitos das práticas espirituais na saúde, aquela era uma chance de verificar na realidade tudo o que eu já havia lido, mas não não durou muito, a minha grade na faculdade ficou excessiva e saí da liga, que por sua vez terminou anos depois e eu nunca soube a razão.


Em 2011 entrei para o teatro, não para experimentar, mas porque sabia que queria ser profissional, me deparei não apenas com semelhanças como pessoas rezando antes de entrar no palco, casamentos e funerais encenados e figuras místicas em cena, mas também com a informação de que o teatro, ao que tudo indica, se iniciou das práticas religiosas primitivas, ao imitar as forças da natureza, das jornadas xamânicas, de rituais diversos, além de relatos de várias pessoas que tiveram suas vidas transformadas nas arenas, o que me deixava curioso.


Esta coisa de espiritualidade do ator é real? Depois de 11 anos vivendo e refletindo sobre isso, a pergunta me faz pensar imediatamente sobre um assunto do qual me falaram no budismo: o desapego.


Já viu que quando falamos em espiritualidade (e obviamente qualquer outro assunto) logo pensamos em muitas imagens? Estas nos trazem uma gama de percepções acerca da nossa realidade, algumas vezes nos identificamos muito com elas, porque já temos seu conteúdo à flor da pele, em outras parece não causar impacto algum, uma vez que aquilo que dela reside em nós está bastante distante.


Ao meu ver, o ator tem a função de dar espaço estas imagens soltas no espaço, como dois mundos que se invejam, às vezes elas cantam, gritam e até falam, parecem estar sempre ávidas por viver alguma coisa com alguém, como um fio que procura uma tomada, e é deste encontro que surge uma nova visão das coisas.


É normal que no dia a dia ocorra distanciamento, é normal esquecer a magia das coisas, é normal sentir falta, é normal que a plateia procure a lembrança. Observe que ir a uma peça funciona como um rito que estabelece um novo marco na realidade interna de cada pessoa que, ao recobrar a memória, chega a parecer enfeitiçada e deste novo ponto de percepção ressignifica o passado e modifica o futuro. Quando isto acontece, a imagem fica satisfeita e vai embora, talvez o ator abra a gaiola da alma e a deixe voar como uma força de um universo incrivelmente vasto.


Por vezes ocorre que o intérprete, apaixonado pela imagem, transforma a poção medicinal em venenosa, o indivíduo não entende o que vive no palco e a leva para o apartamento, agora convertida em personagem quase invisível, exceto para a esposa e os filhos que a viram nascer na fase de construção. O garfo passa a ter o peso de mil anos e mal o nutre, com a voz de um vilão fala à esposa que antes o escutava em sussurro, a imagem que veio do além agora é real assombração, maldição.


O mesmo pode decidir procurar um padre, um médico, um mestre, um diretor, um coach, mas nem mil penitências e orientações são a certeza de que o homem vá finalmente compreender o que o seu encontro com a imagem.


É fundamental que exercite o desapego, caso contrário, pode não conseguir aprender com a personagem. Para o ator é interessante afastar-se e ocasionalmente colocar-se como plateia de si, reconhecer a autoria do que apresenta no palco ou na frente das câmeras, vivenciar as mais variadas emoções como medo, raiva, alegria, encantamento e tantas outras, ao invés de ser possuído por elas e transformar vidas em ruínas.


Escrever sobre tudo isso me faz pensar no que o passado remoto serve ao presente, penso na influência que nós temos no mundo atual, na publicidade, no cinema, nos palcos, nas conquistas. Talvez a essência do teatro, com suas raízes pagãs e residências cristãs vaga pelo espaço, e em sua avidez procura um corpo aquecido por um Fresnel, o som de uma claquete ou o abrir das cortinas para que produza novas realidades. A espiritualidade do ator é uma coisa da qual sentimos falta?


















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